Sábado, 29 de Novembro de 2008

Revelações e surpresas do Guimarães Jazz 2008

 


 

Fotos: cortesia Guimarães Jazz e © Márcia Lessa

                                                                               

Não é a primeira vez, nem será a útima, em que algumas perplexidades ocorrem ao falarmos do jazz tocado em concerto, situação que naturalmente não comporta soluções de emergência  (em bom rigor, indesejáveis, mas utilizadas no jazz gravado)  em termos de montagem e outros reajustamentos, ou seja:  nos processos de “safar”, na pós-produção, aquilo que poderá ter corrido menos bem numa gravação de estúdio.

Pelo contrário, numa actuação ao vivo, sujeita às mais diversas contingências, jamais é um dado absolutamente adquirido que este ou aquele músico acabem por tocar aquilo que deles é legítimo esperar-se ou sequer correspondam às expectativas  (mesmo mínimas)  que o conhecimento do seu histórico de concertos ou gravações permitiria supor.  É essa a singularidade, o desafio maior e o próprio “sal e pimenta” do jazz tocado “sem rede”;  e por isso me faz impressão que, às vezes, certos ouvidos ouçam aquilo que talvez não tenha sido tocado ou certos olhos vejam aquilo que porventura não terá ocorrido.  Só porque, em palco, estava alguém por quem sempre se põe as mãos no fogo  (independentemente do que seja capaz de criar na circunstância!)  ou que em geral se exalta pela habitual solidez das suas actuações.

Ora acontece que a edição deste ano do
Guimarães Jazz  – prometedora “no papel”, pela previsível qualidade e diversidade dos nomes envolvidos –  foi farta em surpresas deste tipo em quase todos os concertos.  Mais agradáveis umas, menos suportáveis outras.

Comecemos, a título de exemplo, pelo concerto que inaugurou o festival e que nos trouxe a presença de
Kurt Elling, uma das mais sérias e talentosas vozes masculinas do jazz actual, que só uma qualquer mania da perseguição poderia alguma vez confundir com o mercantilismo de certas vedetas do pop-jazz!  E, no entanto, é imperioso reconhecer que a actuação de Elling, apesar das evidentes qualidades de uma voz “metálica” e quase-instrumental, que dominou como quis em My Foolish Heart, You Are Too Beautiful, I Can’t Get Started ou nas inflexões bluesy de Sermonette  (dedicado a Obama!), esteve longe da excelência do concerto realizado por exemplo no Estoril Jazz do ano passado, chegando mesmo a enveredar por certas inesperadas concessões ao gosto fácil em termos de repertório.

Já no que se refere a
Steve Coleman e seus Five Elements  – e confessando-vos, desde já, a minha suspeita parcialidade ao falar de uma figura que sempre considerei  (e continuo a considerar)  tão decisiva para o jazz contemporâneo posterior a 1980 –, eu diria que os desajustes face ao que era expectável foram de outra ordem:  é que, ao contrário do que seria de esperar, a vertente da música popular urbana  (invocações do hip-hop ou das batidas latinas por vezes muito presentes na obra do saxofonista)  esteve quase totalmente arredada do concerto, assim se reforçando o lado mais denso, exigente e erudito da sua complexa e inconfundível linguagem jazzística, desde logo na peça inicial da sua lavra  – Plagal Transitions –  exposta a cappella na entrada sucessiva dos vários sopros.

Pautando a sequência da sua actuação por uma lógica e uma coerência interna absolutamente implacáveis, jamais cedendo às tentações do espalhafato e estabelecendo mesmo ligações entre peças com parentescos formais entre si  –
January 18 + Flo Ut Rosa Florit ou Formation + Little One (Little Girl I’ll Miss You), esta última composta pelo seu mui admirado Bunky GreenColeman foi soberano na consistente explanação dos seus princípios conceptuais, expressos em composições altamente estruturadas e concisas na sua configuração inicial mas deixando amplos espaços de liberdade  (sempre “controlada” pelas decisões tomadas no momento)  quanto à escolha diversificada dos seus polivalentes caminhos de desenvolvimento.

E se isto foi patente em relação à sua própria voz instrumental, quer na liderança das secções escritas e tocadas em conjunto quer nas complexas deambulações dos seus solos individuais, o princípio da contaminação interactiva com os seus pares, na dialéctica passagem de testemunho entre as várias improvisações, foi um outro factor de estímulo e de repartição de responsabilidades, assistindo-se com frequência à predominância de
Jonathan Finlayson (trompete) e, sobretudo, Tim Albright (trombone) e mesmo Tyshawn Sorey (bateria) na condução firmemente assumida dos acontecimentos ou nas sucessivas mudanças de rumo, numa viagem cujos únicos e problemáticos escolhos  (ou excessos)  terão sido a sua longa duração ou a utilização  (demasiado “enxuta” e por isso cansativa)  da inexpressiva voz de Jen Shyu.

[
Em tempo:  é claro que, perante reacções muito contraditórias que este concerto despertou, convém naturalmente admitir a possibilidade de este escriba também não ter ouvido, com ouvidos de ouvir, aquilo que foi tocado em palco!]

Não tendo podido assistir, ainda na primeira parte do
Guimarães Jazz, tanto ao concerto este ano co-produzido com a editora Tone of a Pitch como à actuação da banda Stormchaser do britânico Django Bates –  por estar à mesma hora no brilhante concerto realizado pela Orquestra Jazz de Matosinhos com três tenores de vulto  (Joshua Redman, Chris Cheek e Ohad Talmor)  no reaberto Teatro Constantino Nery daquela cidade –, regressaria a Guimarães alguns dias mais tarde para fruir os restantes quatro concertos do festival.

Mais uma vez, quem acaso tivesse apenas ouvido as duas primeiras peças da actuação do quinteto de
Marcus Strickland e fosse surdo ou insensível às graduais transformações que iriam depois marcar o repertório que se seguiu, arriscar-se-ia a afirmar, sem deixar margem para dúvidas, estarmos em presença de um requentado revivalismo do hard bop da década de 1960, mecanicamente transposto para os dias de hoje... A meu ver, puro engano!

Desde o recorte e ambiente instrumental tão especiais da versão de
Scatterheart  (Bjork)  até à sensível homenagem à memória de alguém que desapareceu  (A Memory’s Mourn), começava a adivinhar-se uma pronunciada viragem estética na música deste surpreendente quinteto, pouco depois afirmada sem rodeios na irrupção de uma peça forte e melodicamente angulosa  – Set Free –  inspirada, segundo Strickland, pelo filme Into The Wild  (dir.: Sean Penn, 2007).  Aqui iria começar a revelar-se, num solo excepcional, a modernidade de Jason Palmer, um jovem trompetista de primeira água  – a seguir obrigatoriamente nos próximos tempos –  bem como o transbordante talento de David Bryant no piano, citando sempre a propósito e como quem não quer a coisa, num solo absoluto e impetuoso, Wayne Shorter e outros ilustres.

Quanto ao próprio
Marcus Strickland  – hoje uma presença habitual junto aos maiores –, ele destacou-se invariavelmente pela sonoridade cheia e redonda  (por exemplo, na emocionante versão de Chelsea Bridge, em final de noite), pela inteligente diversidade sónica na utilização do tenor e do soprano e pela convicta capacidade de liderança de que deu provas.  Aliás, não por acaso, já se tinha mostrado claramente ganhadora a condução do workshop que este ano coube a Strickland dirigir em Guimarães com os restantes membros do seu quinteto e que tão bons resultados permitiu demonstrar numa tão exigente quanto simpática actuação vespertina da Big Band da ESMAE, na qual pontuaram o sax-alto de João Mortágua e o sax-tenor de Fernando Sanchez.

Faltariam, ainda, alguns históricos mais ou menos veteranos para completar o cartaz do
Guimarães Jazz 2008.  Aguardado, por exemplo, com justificada expectativa, Kenny Barron não defraudou nos melhores momentos da sua actuação quem esperava vê-lo e ouvi-lo na linha dos grandes pianistas clássicos de que é talentoso seguidor.  Bastaria a introdução em solo absoluto de Blue Moon  (há quanto tempo não ouvia isto!)  para definir essa herança.  Mas outras peças colocariam a fasquia à altura do que se lhe exige, como Shuffle Boil (um rhythm changes de Monk) e dois blues de boa cepa, And Then Again e Wazuri Blues  (este um pouco à maneira de John Lewis), a mostrarem um swing solto mas pleno de firmeza e bem assumido por Kiyoshi Kitagawa (contrabaixo) e Johnathan Blake (bateria).  Quanto ao restante repertório  (dois sambas e um calypso)  é melhor ficar-me por aqui...

Prometedora era também a homenagem a
Lee Morgan, personalidade maior do moderno trompete dos anos de 1960 e seguintes, a cargo do septeto The Cookers, no qual avultavam as presenças de músicos com honroso passado e presente.  Mas para além de uma intensidade sonora demasiado forte  – agravada pelas desastradas intervenções de Larry Lewis (piano) e pela péssima captação de um engenheiro de som trazido pelo grupo, em flagrante contraste com a recatada qualidade quase-acústica demonstrada em todo o festival pelo seguríssimo João Paulo Nogueira –, foi ainda desagradável e desconfortante a sensação de que tudo estava um pouco “descozido”, com um repertório ensaiado em cima da hora, a generalizada ausência de arranjos trabalhados para os quatro sopros e a sistemática e preguiçosa utilização de uníssonos na exposição dos temas, cuja articulação por isso se revelou, em muitos momentos, problemática.  Mesmo assim, certos momentos da actuação de Craig Handy, Billy Harper ou Bennie Maupin, ainda salvaram a honra do convento.

Restava a grandiosidade de um amplo colectivo instrumental – a holandesa
Metropole Orchestra – para encerrar em ambiente festivo o Guimarães Jazz deste ano.  Convém talvez recordar que este género de grandes orquestras, associando à formação-tipo de uma big band as quatro secções de cordas e ainda as madeiras, trompas, harpa e percussão  (mais próximas da orquestra sinfónica), constituem uma tradição há muito enraizada não só na Inglaterra como nos países nórdicos ou da Europa Central e estão em geral agregadas, em regime de actividade permanente, aos mais prestigiados serviços públicos de rádio e televisão.

Durante a II Grande Guerra e nos anos que se seguiram, a presença no teatro de operações e depois da Libertação de bandas militares ou afins pertencentes ao exército dos EUA, nas quais estavam alistados muitos músicos de jazz, exerceram indirectamente alguma influência no tipo de repertório que estas orquestras passaram também a tocar.  Mas a sua actividade regular sempre foi algo híbrida, multidisciplinar e muito diversificada, abrangendo tanto os grandes espectáculos de
music hall como fornecendo contingentes de músicos para festivais da canção ou mesmo praticando certas expressões musicais mais próximas do jazz, quando não claramente identificadas com esta linguagem musical.  O que também não admira, já que muitos músicos de jazz europeus têm nestes países a sua profissão assegurada pela participação regular em tais orquestras.  Não se estranhará, ainda, que várias destas formações instrumentais  – com formato, constituição e repertório claramente próprios do jazz –  convidem para com elas actuar reputados solistas, designadamente os norte-americanos.

Esta realidade é praticamente inexistente nos EUA  – pois os serviços públicos de rádio e televisão, a
NPR e o PBS, embora importantes e quase heróicos na sua função alternativa aos múltiplos média privados, são ali de dimensão diminuta e lutando com grande falta de meios –  sendo assim natural que maestros e arranjadores se dediquem a fazer, pelo Velho Continente, residências mais ou menos prolongadas, nas quais aproveitam para exercitar a sua veia de compositores, numa linguagem que por vezes escapa à matriz do jazz puro e duro.  Entre estes, Vince Mendoza é dos mais activos e prolíficos.  Mas o espectro dos seus interesses musicais é muito vasto, pelo que nem sempre o seu lado jazzístico é aquele que predomina.

Percebem-se, assim, as reticências que em mim despertou um concerto tão espectacular e tão bem recebido pelo público como aquele que a
Metropole Orchestra realizou a encerrar o Guimarães Jazz.  De facto, pesem embora algumas passagens brilhantes de determinadas obras e mesmo as intervenções de músicos de jazz por ali dispersos  – como, entre outros, o trompetista da direita baixa, o guitarrista Peter Tiehuis ou o baterista convidado Peter Erskine –  o facto é que, independentemente dos méritos da orquestra e de uma natural identificação com a cultura jazzística patente na sua componente “big band”, dificilmente se entenderia este concerto como um puro concerto de jazz.  E mesmo algumas das mais vistosas composições de Mendoza não chegaram a ultrapassar, apesar do habitual, eficaz e consistente ofício da escrita instrumental, o tradicional e competente déja entendu de tantas bandas sonoras para o cinema ou para as séries televisivas.  O que, convenhamos, não chega para encher as medidas.

Fica, por último, a sintomática referência à batuta utilizada e exibida por
Vince Mendoza do alto da sua estante de Maestro.  Dispositivo claramente estranho aos directores das orquestras de jazz, essa batuta acabaria afinal por funcionar  (aos meus olhos e aos meus ouvidos)  como o símbolo de um estatuto-outro a que Mendoza parece querer aspirar, mesmo que muita da música que dele ouvimos lhe não tenha conseguido corresponder!

 

 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 14:07
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Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Seixal Jazz: um regresso desejado!

 

 

                                     (fotos gentilmente cedidas pela Câmara Municipal do Seixal)

                     

Uma das reconfortantes tarefas que mais gozo me deram, entre as que durante todos estes anos me ligaram a profissões e actividades no campo da Música, foi a da tradução  (para posterior legendagem)  dos textos ditos por Leonard Bernstein para os seus famosos Concertos para Jovens.

Esta série fabulosa, hoje de culto  – e então  (década de 1960)  ainda vista a P & B e em suporte-filme de 16 mm –  “dava na televisão” do tempo da ditadura (!), ou seja, do tempo em que vigorava um sinistro e duradouro obscurantismo cultural.  Transmitida todas as semanas e em horário nobre.  Quer dizer: à hora a que hoje passam, 34 anos volvidos, Quim Barreiros, Ágata, José Malhoa ou Ruth Marlene.  Veja-se só a trágica contradição!

Tanto quanto a memória ainda é capaz de funcionar, julgo lembrar-me de que num dado episódio  – dedicado à música programática –  Bernstein utilizava largas passagens do Don Juan, um dos mais célebres e assombrosos poemas sinfónicos de Richard Strauss, para ler em voz alta, a par da música, não as aventuras amorosas do sujeito mas as destemidas façanhas do… Superman!… bem mais familiares a uma tão jovem plateia.

E, de facto, como ligava bem (e também) esta nova história com a música de Strauss!  E como se entusiasmavam, lançando gritos e risos à medida que Bernstein ia relatando essas proezas, as crianças e os adolescentes (e seus pais) que enchiam as cadeiras do Carnegie Hall, ao mesmo tempo que todos iam despertando para a música do velho mestre de Munique!

Interessante é que me recordei desta história quando estava a ouvir, no último concerto do Seixal Jazz deste ano  (já lá vão alguns dias!), The Amadeus Suite, uma peça em 4 quadros composta pelo trompetista de jazz britânico Guy Barker em 1999 para corresponder a uma encomenda do Mainly Mozart Festival (San Diego, Califórnia) e rearranjada já em 2006, quando o mesmo festival comemorou a passagem dos 250 anos do compositor.

Segundo a explicação que o próprio trompetista deu aos espectadores do simpático e agradável Auditório Municipal do Seixal, perante a encomenda de uma obra assim “obrigada a mote”, ele terá pensado numa série de quadros inspirados por personagens de óperas de Mozart  – como, por exemplo, A Flauta Mágica –  cujo resultado nos preparávamos para ouvir pela big band do próprio Guy Barker.

                                                                                                            
                
                                                                                                                                     Devo confessar-vos, em jeito de àparte, que nunca me entusiasmaram particularmente  (com algumas notáveis excepções)  outras experiências no campo do jazz com programa, ou seja, obras compostas por personalidades do jazz a partir de uma determinada ideia, conceito ou história.  Neste âmbito, nem sequer considero muito bem conseguida, por exemplo, a famosa suite Such Sweet Thunder, composta por Duke Ellington e Billy Strayhorn, tendo como fonte de inspiração peças e sonetos de Shakespeare e cujo título provém de uma deixa de Puck em     A Midsummer Night’s Dream: “I never heard so musical discord, such sweet thunder.” Não porque a música não seja admirável mas porque me é difícil associá-la ao mestre de Stratford-upon-Avon;  tal como agora não consegui discernir a ligação desta suite de Barker às personagens de Pamina, Papageno ou d’ A Raínha da Noite.  Limitação minha, sem dúvida!

Preferi então recostar-me e, por assim dizer, ouvir a música pela música.  E o facto é que, em geral, não desgostei.  Impressionou-me, até, o tratamento da escrita para os vários naipes, a ligação ou o contraste entre eles, a cultura jazzística dos músicos de estante e de parte significativa dos seus solistas, assim se provando que  (mesmo tratando-se de uma big band)  talvez não fosse má ideia outros responsáveis por festivais de jazz portugueses lembrarem-se de que o jazz do Velho Continente há muito atingiu a maioridade e é por cá muito pouco conhecido, embora esteja aqui à mão e deva ser bem mais barato.

Contrastando bastante com a peça de abertura do concerto  – Underdogs, inspirada por um romance de Rob Ryan e que, na orquestração, me pareceu reflectir às vezes algumas influências tímbricas da orquestra de Stan Kenton, outras vezes a evocação de certas “explosões” da big band de Buddy Rich –  The Amadeus Suite pareceu-me uma obra com traços de maior originalidade, bem gizadas associações instrumentais e uma clara distinção de atmosferas entre os vários quadros, pese embora o único senão de que, durante os vários solos, se sentia haver pouco trabalho de composição, ficando a orquestra demasiado tempo parada, tudo assim transformado na audição de um quinteto.

O que nos deu ocasião, aliás, para ouvirmos solistas de qualidade acima da média e mesmo nalguns casos brilhantes, como o  (convidado)  saxofonista-alto italiano Rosario Giuliani, o trompetista afro-britânico Byron Wallen ou um loiro trombonista (David Williamson?) com surdina de borracha, à “TrickySam Nanton.

                                                                                  
                 


Terminava assim o Seixal Jazz 2008, em boa hora regressado à cena do jazz português  (após uma ausência de três anos)  e que se diz veio para ficar.  Pelo meio tinham-se realizado dois concertos  – pelo quarteto de Cindy Blackman e pelo sexteto The Leaders –  aos quais me impediu de assistir um súbito ataque de forte constipação.  Mas tudo começara três dias antes, da melhor maneira, com mais uma apresentação entre nós do notável quinteto de Dave Holland.

Fiel ao tipo de peças que tão bem constrói em conjunto com os seus pares, Holland demonstrou em palco como jamais se deixa tocar pela preguiça criativa  – pelo menos, nunca calhou surpreendê-lo como tal –  dando-nos a ouvir um ou dois originais novos de excelente cepa e recordando outros já conhecidos mas tratados a uma nova luz ou, se preferirem, desenvolvidos nas várias improvisações de um forma sempre renovada e empolgante.  Mas enquanto Chris Potter confirmou e demonstrou  (sem surpresa de maior)  porque é hoje um dos maiores sax-tenores do nosso tempo  – utilizando ainda o soprano, por exemplo em Easy Did It  (homenagem a New Orleans), certamente pela associação que se poderia traçar em relação a um Sidney Bechet – já Robin Eubanks  (no trombone)  e Steve Nelson  (no vibrafone e na marimba), deixaram entender porque são absolutamente essenciais a este quinteto de Holland.

De facto, as imperceptíveis subdivisões rítmicas e as métricas irregulares que Dave Holland tanto gosta de insinuar no traço das suas composições, implicam que, do lado do vibrafone, sintamos claramente afastadas quaisquer tentações de usar  (e abusar)  do pedal de ressonância que, nos piores casos, o transformam num instrumento de cocktail bar.  E Steve Nelson, no seu impressionante jogo percussivo e seco de efeitos e na estratágia de contratempos e comentários que permanentemente introduz nesses padrões rítmicos tão do agrado de Holland, estabelece com este e ainda com a bateria  (manejada pelo dextro e polivalente Nate Smith)  uma constante convulsão que não pode deixar de impulsionar os solistas dos sopros.

Isso foi patente em vários momentos de excepção deste concerto, como logo na habanera de abertura  (Ebb and Flow)  ou na agitada e portentosa peça de encerramento, que me pareceu ser Double Vision, pertencente ao repertório do novo CD do contrabaixista  (Pass In On), na qual os sopros se transcenderam e Nelson finalmente se fez ouvir, num solo mais longo, como grande improvisador que é.

Pelo meio, ficara ainda um momento particularmente tocante e evocativo  – um pouco como se, de repente, ali pairasse Billy Strayhorn em pessoa! –  na construção gradual da atmosfera de Vale Vail of Tears (?), uma peça em estreia, em que se pôde ouvir uma esplendorosa interacção do sax-tenor de Chris Potter com o trombone de Robin Eubanks, este na mais afirmativa e entusiasmante actuação que desde sempre lhe presenciei.

                                                                                                    


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 12:02
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Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

Discos em Destaque - Outono (2)

 

 


 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 11:21
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Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Àparte (2)

 

Os quatro vídeos que abaixo se podem ver  – e que encontrei numa revista online que geralmente vale a pena visitar –  são um modelo de concisão, da escrita por imagem e som  (ou seja: da montagem)  e ainda do humor, cinefilia, profissionalismo e conhecimento do meio adoptado para comunicar, pelo que não poderia deixar de partilhá-los com os visitantes deste sítio.  Estes quatro vídeos, irresistíveis, são outras tantas etapas de um percurso vertiginoso e reflectem, a meu ver, de forma altamente eficaz, o essencial  (mas também o acessório!)  de um processo cujo final, o final mesmo, é uma incógnita.


Como sempre, é impossível ficar indiferente à realidade que nos rodeia. E quando, mesmo com as devidas distâncias, se assiste a um virar de página como aquele que está a ocorrer, não se estranhará  (está aliás previsto no cabeçalho deste blog)  que aqui invada por momentos este espaço dedicado ao jazz um  (ainda por cima)  afro-americano que, na opinião de milhões, pareceu não ser... “quadrado”.                                                                                     

Ver-se-á, depois, se tem "swing".

__________________________

 

Das Convenções ao Primeiro Debate em Três Minutos

 

 

Do Primeiro ao Último Debate em Quatro Minutos

                                                                           

 

Do Último Debate à Semana Final em Dois Minutos

                                                                        

 

A Última Semana da Campanha em Dois Minutos

 

 


 

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Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Àparte (1)

 

A lucidez de um singular "anarca"...

“(...) In general I’ve found that writing political songs can feel like losing my home-turf advantage if the topic is not a part of my own life experience — what song could I write about a miners’ strike that would sound as good as a song an actual miner would write?  Other writers are fully capable of this but it’s just not my forte.  I may never be able to write political songs with the power of a Phil Ochs but perhaps I can sometimes find a way to make these things work as long as I can keep them tied in to areas I am creatively comfortable with, like pizza, comic books and crayons.  Here is the result  — 'A Quick Biography of Barack Obama': "                                                                                                                                             

   

 

(Extraído de “Verse, Verse, Chorus, Vote!”, por Jeffrey Lewis, in New York Times, 31.10.08)


 

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